Em busca da irmã, e de si própria
10 de junho de 2014

Resenha escrita por  Stephen Holden no jornal americano The New York Times, em 30 de maio de 2014, dia da estreia do filme ELENA em Nova York

Tradução: Robin Geld

A personagem que dá título ao ensaio poético, intensamente pessoal, ELENA, da diretora Petra Costa, é a irmã mais velha, dançarina brasileira e aspirante a atriz de cinema que se radicou na cidade de Nova York e suicidou-se quando Petra tinha 7 anos. Anos depois, Petra, também aspirante a atriz, seguiu os passos de Elena e mudou-se para Nova York para estudar teatro na Universidade de Columbia. “Minha mãe sempre me disse que eu podia morar em qualquer lugar do mundo menos Nova York”, ela lembra, “que eu podia escolher qualquer profissão menos ser atriz”.

O filme é uma colagem densa, impressionista de fragmentos acumulados de vídeos caseiros, recortes de jornal, registros em diários e excertos de cartas, narrados por Ms. Costa em sonhadora tristeza. A recusa dela em seguir o conselho da mãe, presença elegante, sepulcral que entremeia todo o filme, sugere que Petra, como a irmã, é uma jovem impulsiva, volátil, determinada a driblar o destino em sua busca de evocar a irmã de quem era muito próxima quando criança. É também uma tentativa de exorcizar a sua própria tristeza sem fim e, ao assim fazer, se poupar do mesmo destino.

A identificação de Petra com Elena é tão intensa que os rostos das duas irmãs se confundem, como as duas mulheres no filme “Persona” de Ingmar Bergman, uma delas atriz (interpretada por Liv Ullmann) que de repente fica muda, a outra a enfermeira (Bibi Andersson), que em vão tenta levá-la a sair do desespero indescritível. Outro filme clássico ao qual ELENA se refere indiretamente é Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais, com suas reflexões interligando a paixão, o tempo e o trauma histórico sugerido pela menção de “Hiroshima”.

ELENA evoca a experiência de três gerações de mulheres brasileiras. Elena nasceu em 1969, no início da ditadura que levou muitos artistas brasileiros ao exílio. Mais tarde perdeu muitos amigos do mundo da dança à epidemia da AIDS.

Petra, que nasceu em 1983, imagina um contínuo espiritual em que a memória pessoal e a histórica se fundem num fluxo de consciência visual. Ao longo de todo o filme ela se dirige à irmã como se falando com um espírito. Mas a certa altura “você” não é mais apenas Elena, cuja essência ela tenta ressuscitar, mas ela própria e a mãe.

Num livre fluir de imagens, ELENA se desenrola como sonho cinemático cuja imagem central é a água, que simboliza a lavagem da profunda tristeza. Mas mais do que isto, representa o fluxo da vida, com belas imagens de mulheres flutuando através do tempo.



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